RESULTADOS

CORAÇÃO DE CAMPEÃO

AO TRANSFORMAR DIFICULDADES EM DESAFIOS, O LUTADOR DE JIU-JITSU CALOQUINHA VIU NO ESPORTE UM FORTIFICANTE DA ALMA

Caloca era um menino esquentado que não sabia trabalhar em equipe nem aceitava as regras do futebol. Essa é a história infantil “O dono da Bo – la”, inventada por Ruth Rocha, que deu origem ao apelido do irmão de Cláudio de Mattos Cardoso e ao seu também: Caloca e Caloquinha

Mas foi em outro esporte, o jiu-jitsu, que Caloquinha viria aprender, assim como o menino da história, a ter disciplina e o valor de uma boa equipe. Embora ele entre sozinho no tatame, carrega sempre consigo os valores da amizade, da solidariedade e da família, principalmente dos pais que o incentivaram na vida esportiva.

O jiu-jitsu é muito mais que uma ocupação para o atleta. Depois de passar por oito cirurgias, perder a mãe muito cedo e a companheira, amor da sua vida, assassinada, Calo – quinha parece que transferiu todos os desafios impostos na vida pessoal para as competições. Não satisfeito, criou o projeto Jiu-Jitsu Consciente, que já ajudou muitas famílias no período da pandemia por meio de seminários.

Você hoje assume a liderança do ranking mundial, não é? Como foi que o

jiu-jitsu entrou na sua vida?

Assumi o primeiro lugar do ranking, sim, mas teve outro evento nos Estados Unidos e meu concorrente direto me passou. Hoje estou em segundo lugar no ranking mundial de jiu-jitsu sem quimono. Iniciei em 1998. Meu irmão mais velho já treinava antes e me levou para treinar com o mestre Vinicius Draculino que, sem dúvidas, é um dos maiores do mundo e grande responsável pela minha formação. Sou muito abençoado de ter tido o melhor ao meu lado. Desde o início ele me abraçou como um filho, me guiando e instruindo tanto dentro quanto fora do tatame. Em 2003 virei instrutor do Draculino. Ele me ensinou muito como dar aula, o trato com os clientes, além de sempre ter sido um exemplo de atleta, professor, de pessoa honesta… Hoje somos sócios da maior escola de jiujitsu de Minas Gerais, ao lado dos meus grandes amigos Sérgio Benini e Wilson Bolão. Como atleta me sinto realizado porque tenho dentro de mim que fui o melhor que poderia ser, conquistando os principais títulos do circuito mundial. Mas sem dúvidas a minha maior conquista é ter o carinho e respeito de todos aonde quer que eu vá.

E sobre a arte de ensinar? Como foi passar de aluno a mestre?

Foi muito natural. Eu já era aluno e instrutor desde a faixa roxa. Ensinar é maravilhoso! Você vê a evolução do seu aluno, não só no nível técnico, mas a pessoa evolui como pessoa. Eu acho que é o principal. Ela vai melhorando, vai ganhando uma autoestima e isso não tem preço. Você vê a evolução. Às vezes ela está um pouco depressiva e você vê reagindo. Libera uma energia muito boa após os treinos. E as pessoas canalizam isso e usam isso fora para conquistar os objetivos delas. Mesmo fora do esporte, no trabalho, sabe? Isso é muito gratificante. O jiu-jitsu tem esse poder de mostrar que a gente não pode desistir. A resiliência de estar ali, respirar e sair de uma posição difícil. São muitos benefícios que a nossa arte traz e é muito gratificante levar isso para a vida das pessoas.

 

Você conseguiria citar três momentos marcantes na sua vida?

Difícil citar só três. Acho que o momento mais marcante da minha vida… Não sei se é para falar de perdas, porque, sem dúvidas, ter perdido minha mãe quando eu tinha ainda 21 anos. Eu sempre fui muito próximo dela e foi a pessoa mais importante da minha vida. Foi um momento muito difícil, né? Eu sempre consegui lidar com tudo, mas, sempre tive muita dificuldade de aceitar e superar as perdas de entes queridos. Pegar minha faixa preta também, sem dúvidas! Eu vivo do jiu-jitsu e é como se fosse formar numa faculdade, né? A sua responsabilidade aumenta, você serve de exemplo quando vira professor. Muitas crianças e jovens se espelham na gente. Também teve o nascimento da minha afilhadinha, que deu vida para mim. Eu não sabia que podia ter um amor tão grande de um fruto do amor do meu irmão pela esposa dele. Tive também a perda da minha mulher e da minha sogra, há três anos. Foi um baque muito grande. O grande amor da minha vida e tudo… Também foi algo marcante, que eu estou superando até hoje. E a criação do projeto Jiu-jitsu Consciente, que me fez usar o jiujitsu, que eu amo, para conseguir ajudar as pessoas a transformar a vida delas. Sem dúvidas, também é muito marcante para mim. Então você me pediu três e eu acabei falando cinco (risos).

De 2018 a 2019 você passou por um grande desafio, que foi a cirurgia para reparar o joelho, mais especificamente o ligamento cruzado anterior. Como foi essa experiência?

Esse caso meu com cirurgias e lesões graves é algo bem frequente. Eu acho que eu vim nessa terra para mostrar que a gente é forte o bastante para superar todos os obstáculos que Deus coloca no nosso caminho, e nunca desistir de nada. Já foram oito cirurgias na minha vida. Lutando o campeonato brasileiro da Grace Barra eu rompi o tendão do peitoral maior na semifinal. Consegui a luta e fui para a final contundido. Consegui ser campeão. Quando voltei para Belo Horizonte, fui ao médico, já sabia que era algo grave. Já sabia que tinha que fazer uma cirurgia. E eu estava muito focado para lutar o Grand Slam no Rio de Janeiro. É um evento bem grande. Faltavam 78 dias. Eu perguntei o meu preparador e meu fisioterapeuta (Rodrigo Fardel e Bruno Formiga) se dava para recuperar nesse tempo. Confiando neles, com muita dedicação, fisioterapia, trabalhando para voltar o mais rápido possível, eu consegui voltar a treinar em 37 dias e, em 78 dias, eu estava campeão do Grand Slam do Rio de Janeiro. Depois eu tive uma lesão no joelho, rompi o cruzado pela terceira vez, segunda vez no mesmo joelho. Também com muita dedicação eu consegui voltar a treinar com 95 dias, que é um tempo que ninguém acredita. Seis meses depois eu estava fechando o campeonato brasileiro, o maior do país, com o meu sócio, Sérgio Benini. E foi maravilhoso, inesquecível!

Como é tomar o esporte como estilo de vida e que papel você acha que ele tem na vida social? O estilo de vida do jiu-jitsu é tudo o que eu quis para mim, sabe?

É uma vida saudável, aquela energia incrível que a gente tem dentro do tatame. Ali a gente aprende muito a lidar com a adversidade. A gente se torna uma pessoa mais resiliente. E o lifestyle do jiu-jitsu é maravilhoso! Você vive do esporte, transforma vidas ali dentro, você sempre busca ser uma pessoa melhor e a ajudar o próximo. Porque ali a gente vê que sozinho a gente não vai a lugar nenhum. É a vida que eu sempre quis para mim. Sou muito grato a isso. O jiu-jitsu te faz uma pessoa melhor.

Conta um pouco do projeto social Jiu-Jitsu Consciente, que, inclusive, te motivou a entrar na vida política.

O projeto nasceu num dos momentos mais difíceis que eu vivi na minha vida. No final de 2017 eu perdi minha mulher e minha sogra de uma forma bem trágica. Foi tudo muito inesperado. Elas foram assassinadas pelo namorado da avó dela. Hoje estou conseguindo lidar melhor com isso, mas foi muito difícil. E a forma que usei para tentar seguir foi me afogar nos treinos. Viver intensamente e chegar em casa cansado para conseguir relaxar. Viajar o mundo lutando, que é o que eu mais amo fazer. Em setembro de 2018, eu fui lutar um campeonato nos Estados Unidos e a pior coisa que poderia acontecer na vida de um atleta aconteceu comigo. Na primeira luta eu estava ganhando, faltava pouco segundos para terminar. Eu tomei uma chave de joelho bem forte. Eu olhei o cronômetro, quis resistir até o final e não consegui, fui finalizado. Eu vi que tinha machucado sério e quando cheguei em Belo Horizonte fiquei sabendo que tinha que entrar na sala de cirurgia pela oitava vez. Durante a recuperação eu tive muito tempo para refletir sobre a vida. Eu enxerguei que a nossa vida é tão pequena… De uma hora para outra a gente não está aqui mais. Eu pensei que tinha que fazer algo a mais pelo próximo. De início eu pensei em fazer seminários gratuitos nas escolas de jiu-jitsu de Belo Horizonte. No réveillon, passei sozinho, refletindo na minha casa. Aí me veio a ideia. Como um seminário custa mais ou menos cem reais, por que não cobrar aquilo em forma de alimento e doar para entidades carentes? E foi o que eu comecei a fazer. Os seminários tomaram proporções enormes. Pessoas de fora começaram a querer contribuir também. Até hoje eu fiz dezesseis seminários e consegui chegar a muita gente. Aí eu comecei a enxergar uma realidade bem diferente. Pessoas sem saneamento básico, sem dignidade mesmo para viver. E, mesmo dessa maneira complicada, as pessoas eram felizes ainda, sabe? Uma energia boa desse povo. E eu comecei a pensar… Vendo a transformação que o jiu-jitsu traz, que o esporte faz na vida das pessoas, que eu entrando nesse meio político eu poderia ajudar mais. Eu poderia realmente lutar por estas pessoas.

 

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